Muitos morreram por minhas mãos.
De fome, de frio, de excesso de trabalho. De maus tratos e de doenças não
tratadas.
Estava em minhas mãos o poder da vida e da morte, e pela falsa crença de
pertencer a uma raça superior, acabei ofuscado pela vaidade, e tomei o caminho
errado.
Com o fim da guerra, precisei fugir. Vivi
escondido desde então.
Saí de minha terra para nunca mais voltar. Refugiei-me em outro continente, onde
permaneci até desencarnar. Deixei para trás esposa e filhos e recomecei com
outra identidade.
Esta nova situação, entretanto, não era a
causadora do sofrimento maior. Vivi até os 73 anos, perturbado, sem poder
dormir.
Pesadelos perseguiam-me. Rostos horrendos e centenas de mãos a agarrar-me,
clamando por justiça.
Temia minha própria sombra, horrorizava-me ante a idéia da morte.
Sobressaltava-me ver nos noticiários ex-colegas de combate capturados e
executados, e concluir que ainda nos perseguiam após tantos anos. Éramos
monstros. Eu era um monstro. Merecia tudo aquilo.
Desencarnei de forma violenta, numa praia.
Saí da água já desencarnado, sem me dar conta. Fiquei apavorado com a quantidade
de espectros humanos que de repente surgiam ali. Era como que se tivessem saído
dos meus pesadelos e entrado na realidade para finalmente vingarem-se.
A partir dali passei a fugir e a esconder-me,
agora de uma forma muito real. Vivia como um rato, entocado, bebendo água podre
do chão e comendo o pouco que encontrava no lixo.
Bandos incansáveis reviravam tudo a minha procura, gritando meu nome,
obrigando-me a permanecer sempre em movimento.
"Até quando?", pensei. "Já fazem anos que o mar tirou-me a vida. Quanto tempo mais terei que sofrer? Viverei para sempre no inferno?"
Chorei copiosamente e pedi perdão a Deus.
Seres de Luz recolheram-me. Hoje, pela primeira vez tenho a oportunidade de
narrar minha desventurada história.
Muito tenho a aprender, muitas encarnações de dor ainda virão, até que eu possa
reassumir o controle e estar em condições de me considerar novamente humano.
Orem por mim.
Joseph.