Cód:

279
18/10/2006
Autor:
Psicografado por: Cleber P. Campos
Ref:
Câmara de Gás

Depois de muito tempo de trabalhos forçados meu corpo estava em frangalhos.

Eu mal podia parar em pé, e não era para menos: já contava com mais de 40 anos e nos últimos dois anos me obrigavam a trabalhar na lavoura pelo menos 12 horas por dia, servindo-me apenas um prato de sopa rala e sem gosto.

 

Descansar era quase impossível, pois o alojamento era úmido e sem proteção contra o frio intenso. Higiene simplesmente não havia e à noite nos amontoávamos às centenas, o que facilitava a transmissão de doenças infecciosas e de todo tipo de doenças de pele.

 

Numa das inspeções sanitárias de rotina, fui separado do grande grupo, devido certamente à minha debilidade física. Muitos, como eu, também foram separados, e formamos um grupo de farrapos humanos.

 

Fomos, então, tal como gado, colocados num trem e levados para longe. Muitos não resistiram e morreram pelo caminho e, mesmo mortos, permaneciam em pé devido a lotação dos vagões.

 

Chegando ao destino final fomos obrigados a nos despir e fomos conduzidos, em fila, a um grande salão sem janelas. Após o último ter entrado, bateram atrás de nós uma pesada porta de metal que possuía uma minúscula espia de vidro, lacrando o recinto.
Minutos depois o salão foi invadido por uma nuvem espessa de gás. Pânico e gritaria geral, que não durou sequer dois segundos. Impossível respirar. Impossível abrir os olhos, que ardiam demais.

 

Mas, aos poucos a sensação ruim foi passando e, apesar do peito apertado, meus pulmões já voltavam a funcionar. O ardor nos olhos já não era tão forte e pude então voltar a abri-los.

 

Em meio a fumaça que se dissipava lentamente, uma nova porta que dava para um corredor comprido e iluminado se abriu. De lá, soldados nos chamavam e, como sempre, prontamente cumprimos suas ordens para evitar os duros castigos aos quais estávamos habituados, correndo em sua direção.

 

Para minha surpresa e a de todos os “sobreviventes”, não eram os nazistas que nos aguardavam corredor adentro. Fomos respeitosamente recebidos por soldados em uniformes brancos, que nos convidavam a seguir com eles para um “novo lar”. No fim do corredor nos aguardavam belos veículos iluminados, que em nada lembravam os horripilantes trens que nos trouxeram para o suplício final.

 

Antes de seguir, olhei para trás e percebi que nem todos podiam “ver” este novo caminho.

Alguns simplesmente gritavam de pavor, ainda tomados pela horrível sensação do gás, e, enquanto os alemães com suas máscaras já iam entrando para recolher os corpos, fugiam pela mesma porta por onde haviam entrado, correndo como loucos e desaparecendo de nossas vista.

 

Segui com os Benfeitores, recuperei-me e passei a ajudar na busca e coleta destes infelizes que, como eu, foram assassinados nas câmaras de gás e não tiveram suficiente discernimento para ver a Luz do Senhor.

 

Hoje, 60 anos depois, ainda temos almas a coletar. Aqui, agora, temos alguns companheiros que foram trazidos a esta reunião, a fim de abrir-lhes os olhos do espírito para a nova situação, na esperança que compreendam que tudo já faz parte do passado, que perdoem e que sigam em frente.

 

Muito obrigado pela ajuda.

Que Deus abençoe a todos e ilumine o nosso trabalho.

 

Isaac.

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