Cód:

285
24/01/2007
Autor:
Psicografado por: Cleber P. Campos
Ref:

Muitos morreram por minhas mãos.
De fome, de frio, de excesso de trabalho. De maus tratos e de doenças não tratadas.
Estava em minhas mãos o poder da vida e da morte, e pela falsa crença de pertencer a uma raça superior, acabei ofuscado pela vaidade, e tomei o caminho errado.

Com o fim da guerra, precisei fugir. Vivi escondido desde então.
Saí de minha terra para nunca mais voltar. Refugiei-me em outro continente, onde permaneci até desencarnar. Deixei para trás esposa e filhos e recomecei com outra identidade.

Esta nova situação, entretanto, não era a causadora do sofrimento maior. Vivi até os 73 anos, perturbado, sem poder dormir.
Pesadelos perseguiam-me. Rostos horrendos e centenas de mãos a agarrar-me, clamando por justiça.
Temia minha própria sombra, horrorizava-me ante a idéia da morte. Sobressaltava-me ver nos noticiários ex-colegas de combate capturados e executados, e concluir que ainda nos perseguiam após tantos anos. Éramos monstros. Eu era um monstro. Merecia tudo aquilo.

Desencarnei de forma violenta, numa praia.
Saí da água já desencarnado, sem me dar conta. Fiquei apavorado com a quantidade de espectros humanos que de repente surgiam ali. Era como que se tivessem saído dos meus pesadelos e entrado na realidade para finalmente vingarem-se.

A partir dali passei a fugir e a esconder-me, agora de uma forma muito real. Vivia como um rato, entocado, bebendo água podre do chão e comendo o pouco que encontrava no lixo.
Bandos incansáveis reviravam tudo a minha procura, gritando meu nome, obrigando-me a permanecer sempre em movimento.

"Até quando?", pensei. "Já fazem anos que o mar tirou-me a vida. Quanto tempo mais terei que sofrer? Viverei para sempre no inferno?"

Chorei copiosamente e pedi perdão a Deus.
Seres de Luz recolheram-me. Hoje, pela primeira vez tenho a oportunidade de narrar minha desventurada história.
Muito tenho a aprender, muitas encarnações de dor ainda virão, até que eu possa reassumir o controle e estar em condições de me considerar novamente humano.

Orem por mim.

Joseph.

 

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