Cód:

210
22/01/2004
Autor:
Psicografado por: Cleber P. Campos
Entre Vidas

Entre Vidas


1 22/01/2004
2 29/01/2004
3 05/02/2004
4 19/02/2004
5 15/03/2004
6 01/07/2004

I

Era uma tarde de verão, muito quente, sem vento, tudo parado. Disto me lembro bem, como se fosse hoje.
Meu irmão e eu, sentados à sombra da velha árvore, como sempre, a tramar algo para espantar a monotonia.
Cidade pequena, pouca gente, todo mundo amigo de todo mundo, onde todos se conheciam pelo nome, ou por sugestivos apelidos. Todo dia sempre igual.
Na falta de idéia melhor, aceitei a sugestão de meu irmão de ir pescar. Rapidamente pegamos nossas varinhas e fomos para a beira do rio que, nesta época do ano, reforçado pelas chuvas de verão, estava encorpado, largo, forte.
Cavamos as minhocas e, quando a latinha estava cheia, pusemo-nos a trabalhar, sentados à margem e lançando nossos anzóis até onde alcançavam nossas linhas.
Ficamos ali horas. A cada peixe, a alegria de pensar em nossa mãe nos abraçando pela refeição que nossa brincadeira garantia.
Rimos e conversamos durante toda a tarde, como não fazíamos há muito tempo. Só anos depois é que aquela tarde começou a fazer sentido para mim, quando comecei a compreender a grandeza da obra e dos desígnios de Deus.
Lá pelas tantas, já cansados de tanto peixe e com a pele ressecada do calor, resolvemos que era hora de voltar.

Ainda sentado na margem comecei a recolher minhas coisas, quando um arrepio estranho percorreu o meu corpo.
Ao mesmo tempo, formou-se uma grande onda em minha frente, levantando uma imensa massa de água em minha direção. Lembro-me do olhar aterrorizado de meu irmão, de sua voz gritando algo que não pude entender.
Como que tomado por uma força estranha, fiquei imóvel enquanto um zumbido ecoava em meus ouvidos. O tempo parecia ter parado. Uma dor aguda surgiu de repente em minha perna direita. Saído da imensa onda, um jacaré havia me escolhido como presa e me deu o certeiro bote.
O mundo começou a girar, o rosto do meu irmão foi sumindo, apagando-se assim como a dor, que cedeu lugar ao ardor nos pulmões pela falta de ar.
Imagens e sons iam e vinham em minha mente, com a rapidez do relâmpago. Desejos, sucessos, fracassos, as pessoas amadas, os inimigos, tudo passava desordenadamente em minha cabeça.
Gritei por Deus, por misericórdia, por ajuda. Minhas forças voltaram, lutei, libertei-me do animal e pude ver o sol sobre a água, como a chamar-me de volta à superfície.
Nadei em direção à luz, chegando à tona com os pulmões a ponto de explodir, implorando por ar. Chegando à margem do grande rio, deixei-me cair exausto, respirando aos pulos, tossindo e expelindo água pela boca e pelas narinas.
Deixei-me ficar ali, deitando na areia branca, por algum tempo. Quando os sentidos pareceram voltar, comecei a ouvir um burburinho entrecortado por gritos. Dentre o grande alvoroço, reconheci, entre tantas vozes, a voz de meu irmão.
Pus-me em pé, mas não pude sustentar-me. Minha perna estava em frangalhos e a dor levou-me novamente ao chão. Numa segunda tentativa, consegui apoiar-me somente na perna esquerda e com sofreguidão fui me aproximando da multidão.
A cidade inteira parecia estar à beira do rio. Homens, mulheres, crianças. Muitas canoas e pescadores com suas redes. O falatório era de enlouquecer.
Esgueirei-me entre as pessoas, que pareciam ignorar-me e, apesar de meus pedidos, não me davam passagem. No centro da grande roda formada pela multidão, uma cena horripilante que se fixou em minha mente. Os pescadores haviam abatido um enorme jacaré e, com um facão, rasgaram sua barriga.
Senti uma forte tontura, que embrulhou meu estômago. Não pude conter o vômito, que saiu em jatos. Um calafrio de terror subiu pela minha espinha.
Das tripas que se projetavam para fora da barriga do réptil, pude identificar partes ainda inteiras do meu corpo.
Perto dali, minha mãe e meu irmão choravam. Minha mãe sentada no chão, completamente prostrada, e meu irmão tentando ampará-la. Fui até eles e ao tentar dizer-lhes algo, percebi que minha mãe levou as mãos à cabeça e seu choro transformou-se em gritos de desespero. Meu irmão, que parecia contido também pôs-se a chorar desesperadamente.

Assustado, afastei-me.
O que aconteceu comigo? Como posso ainda estar vivo, diante de tamanho horror?
Pouco a pouco todos se foram e fiquei completamente só. Minha perna ainda sangrava e começou a doer muito. Outros ferimentos pelo corpo também causavam incômodo.
A noite chegou e com ela veio aquele friozinho característico.
Luzes e animais estranhos, que eu nunca havia visto, circulavam por ali, indo e vindo. O vento parecia trazer vozes e sussurros, trazendo frases incompletas que muitas vezes não faziam sentido para mim.
Compreendi que algo havia mudado em mim, mas não, eu não podia aceitar.

Olhei para o céu estrelado. Pensei em Deus.
Pedi perdão, orei, implorei por uma resposta. Um ruído na mata chamou-me a atenção e fez-me interromper a oração. Virei-me e deparei-me com uma luz muito branca, que ia se formando e se intensificando por entre os arbustos.
Pouco a pouco, a luz ia se aproximando, até que pude definir a figura de um homem, cabelos longos e claros, olhos azuis e pele alva.
Aproximou-se e tocou meu ombro, abrindo largo e acolhedor sorriso. Nesta hora uma calma sem par aquietou meu coração e fez desaparecer o desconforto da dor.
Fiquei estático, sem nada conseguir dizer.
Pegando-me pelo braço, puxou-me dizendo "Venha comigo. Eu tenho todas as respostas de que você precisa agora".
Começava ali uma nova vida.


II

Acordei sentindo-me muito bem. Fazia muito tempo que eu não tinha um sono reparador como aquele.
Olhei em volta. Estava num quarto desconhecido, mas muito limpo, de paredes claras, com uma grande janela que mais parecia uma pintura, dada a paisagem que revelava. A cama que me acolhia tinha lençóis brancos e eu vestia um camisolão também branco.
A lembrança do que me aconteceu veio a minha mente  como um lampejo, e um calafrio percorreu minha espinha, fazendo-me tremer de cima a baixo. Mesmo assim, respirei aliviado. Estava num hospital, não havia dúvida.
Olhei para mim mesmo e os ferimentos estavam ali, minha perna enfaixada e alguns curativos pelo corpo.
Não, não foi um sonho. Fui mesmo atacado por aquele enorme animal. Mas estava vivo! Não me lembrava como havia chegado ali, mas certamente aquele homem bondoso havia me trazido e eu havia sido tratado.

Como me sentia bem, saltei da cama, mas a perna machucada quase me pôs de joelhos, fazendo-me soltar um gemido abafado. Com jeitinho pude ficar em pé, e passei a observar tudo em minha volta com muita curiosidade.
Que lugar seria aquele? Não sabia que havia tão belo hospital nas redondezas. Teriam construído um novo sem que eu soubesse, ou teriam me levado para a capital?
Havia um leve e delicioso perfume no ar. Era prazeroso encher os pulmões.
Dirigi-me à janela. Lá fora o céu estalava de azul e o sol dourava a paisagem. Um imenso e bem cuidado jardim se perdia de vista e misturava-se com o que parecia ser mata nativa, que me lembrava as vizinhanças de minha casa.
Ouvi ao longe o canto de um pássaro, que para mim era desconhecido. Ao fixar a atenção, buscando ouvi-lo melhor, tive a sensação nítida de ter a bela ave a cantar diante de meus olhos. Pude vê-la com clareza de detalhes e ouvir seu canto, como se estivesse dentro de minha cabeça. Aquilo era de uma perfeição e beleza ímpares e ao mesmo tempo era muito estranho. Como de repente eu podia ver e ouvir um pássaro que estava num árvore distante, como se ele estivesse ao alcance de minha mão?
Este pensamento cortou minha atenção e a cena voltou ao ponto inicial, com o pássaro cantando ao longe. Fiquei assustado, pensando se o choque do acidente que havia sofrido poderia ter afetado meu julgamento.

Continuei a admirar a paisagem quando vi, num banco mais além, duas jovens chegarem conversando e sentarem-se lado a lado. Pareciam conversar animadamente e eu podia notar que riam muito. Fiquei curioso e numa fração de segundo era como se eu estivesse ali, ao lado das duas, sem que elas pudessem me ver. Podia agora ouvir claramente o que diziam e, se quisesse, acho que poderia sentar-me no banco ao lado delas. Tudo era muito nítido. Podia ver seus rostos jovens e corados do sol, os cabelos e as cores de suas roupas. Uma delas tinha os cabelos longos e castanhos e grandes olhos verdes. Era tão bonita que quase não notei a presença da outra que, durante a breve conversa, chamou-a de Tânia. Mas, inexplicavelmente, eu já sabia seu nome e sentia como se a conhecesse. O coração disparou.
Fechei os olhos, balancei a cabeça atordoado e tudo voltou ao normal. Estava novamente debruçado na janela do meu quarto de hospital.

Isto fez com que eu me afastasse da janela, temendo estar perdendo o juízo. Sentei-me na cama com o coração aos pulos, sem saber o que fazer, ainda fitando a janela.
- Bom dia! Que bom que você acordou. Como está se sentindo?
Virei-me para a porta e dei de cara com meu velho tio Augusto. Fiquei passado. 
"Fiquei mesmo louco - pensei. Isto não é um hospital, é um sanatório. A mordida do jacaré deve ter sido demais para mim e acabaram me internando."
Fechei os olhos e tornei a abri-los. Meu tio ainda estava ali parado, olhando-me com aquele sorriso largo que nunca saiu da minha cabeça, exatamente como eu me lembrava dele. Fechei os olhos novamente e rezei pedindo a Deus que me devolvesse ao meu juízo perfeito.
Senti uma mão pousar em minha cabeça e afagar meus cabelos. Mesmo confuso e amedrontado, consegui dizer:
- Ai meu Deus...Pirei de vez, estou até vendo assombração!
Meu tio olhou-me nos olhos e começou a rir.
- Assombração, eu? - Sentou-se na cadeira que estava ao lado da cama e segurou a pança, rindo até não poder mais.
Aquilo me deixou desconcertado, e disparei:
- Assombração sim, senhor! Afinal, você morreu!
Ele parou de rir, levantou-se e, olhando-me com ternura, respondeu:
- Você também, José Carlos. Seu corpo também morreu. Seja bem-vindo à Colônia Entre Vidas.


III

Sentia-me melhor, mas o sono não vinha. A horas meu tio Augusto havia me deixado, com a recomendação que eu repousasse.
Mas como dormir depois de um dia como este?
A janela que antes me mostrava um dia belo e ensolarado agora me brindava com a visão de uma noite espetacular. O céu apinhado de estrelas cintilantes e a mais linda lua prateada que eu jamais havia visto.
Sentado na cama, meus pensamentos voavam soltos, noite adentro. Podia sentir a brisa, o delicioso frescor do ar noturno. Se fechasse os olhos sentia o ar agitar meus cabelos e, temendo alçar vôo, abria-os em seguida.
Comecei a pensar em tudo que meu tio havia me dito naquela tarde.

Então eu já estava ali a duas semanas. Os amigos da Colônia mantiveram-me adormecido para que me recuperasse do choque de uma desencarnação violenta e principalmente para que não me perturbasse ainda mais com os chamados desesperados de minha mãe.
Ela havia ficado em estado de choque, não aceitando o que havia me acontecido, revoltando-se contra Deus. Com a ajuda dos benfeitores da Colônia, encontrava-se agora mais calma. Os amigos espirituais haviam dispensado a ela toda a ajuda permitida nestes casos, através de passes magnéticos de cura, fazendo-a entender que precisava continuar e que a Divina Providência tem suas razões.
Eram exatamente estas razões que me inquietavam.
Pensava no porque de uma morte tão dolorosa, tão violenta. Rebusquei minhas lembranças. Em quinze anos de vida, não me lembrava de ter feito mal a alguém. Lembrava, sim, de ter trabalhado muito ao lado de minha mãe, ajudando as pessoas da vila. Minha mãe, enfermeira estudada na capital, era também a parteira do lugar. Quantas e quantas vezes deixei de brincar para ajudá-la em seu trabalho, fazendo curativos, acompanhando carinhosamente os idosos, aplicando injeções ou ajudando a trazer as criancinhas ao mundo.
Molecagens fiz milhares, mas nada que prejudicasse nossos vizinhos.
Nunca maltratei os animais da floresta. Cheguei mesmo a tratar de um pequeno jacaré que a enchente trouxe, até que ele ficasse forte o bastante para se defender sozinho. Quem sabe não teria sido ele o meu algoz?
Onde estavam então meus erros, para que tal provação se justificasse? Por que mereci tão amargo castigo?
- Não foi castigo. Foi uma bênção - dissera-me meu tio.
Foi você quem escolheu as condições desta vida física que acabou de deixar. Baseado nos erros de seu passado na Terra, você, auxiliado por seus Orientadores, traçou seu caminho, que o levaria a uma morte lenta e dolorosa, em meio à penúria e solidão.
Tem razão quando argumenta que foi bom e que ajudou muitas pessoas. Isto fez com que seus Orientadores o trouxessem de volta, desviando-o de seu trajeto original, graças a seu merecimento.
Mas é muito cedo para você compreender isto. Você acabou de chegar. Trate de se cuidar, de poder ficar em pé para que possa conhecer a Colônia e aprender sobre sua nova situação. No tempo certo tudo ficará mais claro.

E o sono que não vinha... Desci da cama e fui manquitolando até o banheiro.
Engraçado isto, pensei. Estou morto e ainda sinto vontade de ir ao banheiro no meio da noite. Como é que pode?
De volta ao leito, novamente lembrei das explicações do meu bondoso tio.
Ao desencarnar muitos de nós guardamos as impressões do corpo físico, e o meu caso era típico, devido à natureza da minha morte física. As necessidades físicas, tais como ir ao banheiro ou sentir fome e cansaço, por exemplo, faziam parte dos primeiros passos da vida espiritual. Estavam em minha mente, e à medida que eu aprendesse a controlá-la, poderia deixar de fazer tais atividades.
Já pensou? Nunca mais ir ao banheiro e passar vinte e quatro horas acordado sem se cansar? Com certeza eu ainda não estava preparado para tanta evolução, pois meu estômago roncava de fome. Estiquei o braço e servi-me de alguns salgados que estavam num pote junto a cabeceira da cama. Estavam simplesmente deliciosos, assim como o jantar que haviam me servido horas atrás.

Foi então que percebi que tudo ali era feito especialmente para proporcionar todo o conforto possível ao viajante que regressava ao mundo espiritual. Tudo estava à mão, muito bem cuidado, muito limpo, muito caprichado. O quarto, as roupas, a comida e até o banheiro. Que dizer, então, do lugar? Belíssimas paisagens, ar fresco, música suave e muita paz.
Com certeza, obra de Deus. Sim, Deus, que tudo sabia e que tudo fazia por seus filhos.
Lembrei-me de minha mãe e praticamente pude ouvi-la repreendendo-me: "Agradeça a Deus por tudo de bom que está acontecendo com você!"
Numa mistura de saudade e vergonha, orei em silêncio. As palavras iam brotando em minha mente, enquanto as lágrimas rolavam soltas. Uma sensação de leveza foi tomando conta de mim.
Lá fora, percebi que algo se movimentava no céu. Pequenas gotas de luz aproximaram-se da janela e entraram, iluminando meu quarto, envolvendo-me.
Senti uma forte emoção, senti-me forte e abençoado. Por um instante pude compreender o verdadeiro sentido da palavra Amor.

Minha mãe costumava dizer também que todas as preces sinceras são atendidas. Agora eu podia ver que ela estava certa.
Com certeza, obra de Deus.


IV

Várias semanas se passaram.
Tio Augusto vinha me visitar todas as tardes e eu havia feito muitos amigos entre o pessoal que trabalhava no hospital e outros que, como eu, estavam ali em fase de adaptação no novo mundo. Sempre fui um sujeito despojado e simples, fazendo amizades facilmente.
Sentia-me cada vez mais leve. A felicidade e a gratidão pareciam que iam saltar do meu peito.
Minha perna já estava completamente curada. Todas as manhãs os enfermeiros vinham a meu quarto e aplicavam-me passes magnéticos sobre as feridas, que iam desaparecendo por completo. Em conversas com estes amáveis benfeitores, fui aprendendo que por ali a força do pensamento era de suma importância, daí a necessidade de oração constante para ajudar a manter os pensamentos elevados e positivos.
Na verdade, os passes aliviavam bastante meus ferimentos, mas notei que os mesmos só começaram a desaparecer em função do desenvolvimento da minha fé. Fé na minha própria capacidade de recuperação, somada a alegria e ao desprendimento de estar vivendo ali.

Já havia lido quase todos os livros que estavam disponíveis em meu quarto. Engraçado é que quando encarnado, apesar de alfabetizado, tinha imensa dificuldade para ler, o que acabava dispersando minha atenção e me aborrecendo.
A leitura agora me dava um imenso prazer eu consumia as frases e páginas dos livros com desenvoltura. Lições maravilhosas pude aprender, lendo a narrativa de sucessivas vidas, onde as pessoas iam do anonimato à celebridade, da riqueza à pobreza, onde os pais de hoje se tornavam os filhos de amanhã. A idéia da reencarnação nunca fez parte de minhas crenças na Terra e a reflexão provocada pela leitura atormentavam minha cabeça. Certamente se me contassem tais histórias quando encarnado eu não acreditaria.
Espantei-me em certa passagem de um romance onde a personagem reencarnara em um corpo de outro sexo. Fechei o livro e fiquei horas a matutar, inconformado. Como é que pode? Será que eu poderia reencarnar como uma mulher? Ai, meu Deus, isto não, de jeito nenhum...

Os livros, além de ensinarem-me as primeiras lições do mundo espiritual tiveram para mim um outro mérito. Me mostraram de forma prática que neste lado da vida a mente e a vontade transformam tudo que estiver ao redor. No começo não é nada fácil, pois, como qualquer coisa que se deseje aprender, há que se praticar bastante.
Certa feita fiquei tão interessado num livro que, sem perceber, acabei lendo-o inteiro, de uma só vez. Quando fechei o livro e desprendi minha atenção da história, percebi que mais de vinte e quatro horas haviam se passado.
Não parecia uma grande façanha ler um livro em pouco mais de um dia, mas eu havia ficado este tempo todo sem comer, sem beber e sem ir ao banheiro. Havia ficado também sem dormir ou tomar banho, e sentia-me completamente disposto, sem fome ou sede. Tampouco meu corpo exalava qualquer tipo de odor.
Comecei a prestar atenção aos detalhes. O lindo pássaro que atraiu-me a atenção em minha chegada vinha todos os dias cantar na mesma árvore. E lá ia eu, mentalmente, até ele, para vê-lo e ouvi-lo. Confesso que muitas vezes aproximava-me rápido e, desastrado, trombava com a ave e espantando-a.
Explicaram-me que a sensação física da fome havia ficado retida em minha mente espiritual. Fiquei sabendo que muitos amigos que haviam chegado a muito mais tempo ainda necessitam fazer refeições regulares e outros ainda comiam por prazer. No fim das contas, não seria necessário alimentar-se e nem mesmo dormir. Naquela fase, ficava a meu critério fazer ou não tais coisas.

Pensei muito a respeito e concluí que deveria me esforçar por aprender o mais rápido possível agir de forma condizente com minha nova situação. Assim, fui doutrinando minha mente.
As vezes almoçava e não jantava. Outras, sentava-me à mesa do jantar com algum recém-chegado que, ao ver-me perambulando pelos corredores, chamava-me a fazer-lhe companhia.
Não podia deixar de notar que diariamente muita gente chegava à colônia, trazidos por inúmeros socorristas. Eu queria mesmo era retribuir toda a ajuda que havia recebido. Queria trabalhar, ajudar, fazer alguma coisa útil. Daí meu esforço em aprender.

Assim, lá estava eu.
Minha perna curada, leve e bem disposto. Já não precisava mais comer ou ir ao banheiro. Tais coisas já eram de meu completo domínio. Projetava-me também facilmente a curtas distâncias, geralmente em trajetos definidos pelo alcance de minha visão. Chegando ao destino, já podia ver e ouvir com clareza.
De vez em quando, ao pensar em minha mãe, podia ouvi-la em preces, o que me sugeria que eu poderia projetar-me até ela e também a outros lugares, independente de tempo e distância.
Tio Augusto confirmou que o espírito é livre para ir e vir e que, dependendo de sua força moral conhece obstáculos. Mas desencorajou-me a tentar, explicando-me que eu ainda precisava de mais conhecimento e maturidade. Decidi aceitar os conselhos de meu tio, lembrando dos umbrais e dos espíritos obscuros retratados nos livros que havia lido.
Mesmo assim, estava inquieto, pois ao mesmo tempo que sentia que era chegada a hora de sair dali, não queria parecer ingrato.

E, naquela tarde, tio Augusto não apareceu. Naquela tarde não havia mais nenhum livro.
Fui caminhar no jardim, que estava calmo e vazio. Sentei-me e fiquei parado, daquele jeito em que a gente olha para o horizonte no fundo não está olhando para lugar nenhum.
Senti um toque no meu ombro.
- Olá. Estava esperando por você. Quer dar uma volta e conhecer a colônia?
Levantei-me e ao dar meia volta fiquei diante de uma linda moça. Era Tânia.


V

Minhas pernas bambearam e meu coração disparou. Senti um calor subir pelo rosto e acho que corei. Não consegui dizer nada.
- Não quer dar uma volta? Se preferir podemos apenas sentar e conversar.
Novamente fiquei em silêncio. Estava tomado pela emoção, mas não compreendia o porque. Estar diante de Tânia novamente, reviveram os sentimentos daquela tarde, onde tive a sensação que já a conhecia.
Agora eu me sentia claramente atraído por ela, sentia que éramos grandes amigos e que a ocasião era um reencontro que me enchia de uma atordoante felicidade, mesmo não conseguindo ligar Tânia a meu passado.
Percebendo meu embaraço, ela tomou-me pelas mãos e sentamo-nos.

- É muito bom vê-lo novamente - disse ela com ternura.
- Então já nos conhecemos? Tenho a sensação que fortes laços nos unem, mas não consigo lembrar de onde a conheço. O que está acontecendo comigo?
- Tenha calma. Você aos poucos vai retomar o controle de seu corpo astral e vai lembrar-se de tudo.
- O que há para lembrar? Tive uma vida simples, vivi no meio do mato, tinha poucos parentes e alguns amigos. Desencarnei jovem, não casei, não tive filhos, nem mesmo terminei meus estudos.
- Estou aqui porque além de gostar muito de você, recebi com gratidão a tarefa de auxiliá-lo a readaptar-se à vida espiritual. Na verdade, venho acompanhando-o desde sua reencarnação e estive com seu tio Augusto a esperá-lo no dia de seu retorno. Não deixei que me visse para poupar-lhe as forças e evitar-lhe emoções desnecessárias para aquele momento tão difícil. Agora, de acordo com os Mentores desta Casa, você já está preparado, o que muito me alegra.
- Preparado? Para que?
- Para saber mais. Para conhecer melhor a Colônia. Para encantar-se com a verdadeira vida. Para lembrar-se de suas outras vidas.
- Outras vidas? Meu Deus, que loucura é essa? Eu sempre fui este cara aqui, o José Carlos!
- Você ainda é o José Carlos. Mas não é o mesmo José Carlos que deixou a Terra. Não notou as mudanças que ocorreram com você? A quanto tempo não toma uma refeição? Quando foi que você olhou-se no espelho pela última vez?

Senti um arrepio. Realmente eu sentia-me diferente a cada dia. As feridas da desencarnação curaram-se por completo. Refeições? Abandonei-as por completo. Dormir? Quase nada. Andar, de jeito nenhum. Aprendi a mover-me com a força do meu pensamento.
Nomes, pessoas e situações salpicavam em minha mente, com uma frequência cada vez maior. E, nestas ocasiões eu sentia-me outra pessoa, sentia-me o principal personagem daquelas lembranças.
Mas, era no espelho que eu ficava mais intrigado. Às vezes minhas feições pareciam alteradas a ponto de eu não reconhecer meu próprio rosto. Meus cabelos estavam diferentes, pareciam mais escuros e mais lisos. E, definitivamente, eu não tinha mais a aparência de um jovem de quinze anos. Passaria tranquilamente por um homem de uns vinte e cinco ou trinta anos.

- Você tem razão - disse à Tânia - não sou mais o mesmo. Gostaria de saber o que está se passando comigo.
- Você, como todos nós, é um espírito imortal que teve várias passagens pelo planeta Terra. Em cada uma delas você foi uma pessoa diferente, fez coisas boas e coisas ruins, amou e foi amado, aprendeu e evoluiu. Sim, você ainda é o José Carlos, que está aos poucos tomando as rédeas do seu ser em toda a sua plenitude. Na verdade, você é a somatória de todas as suas vidas, onde suas alegrias e suas tristezas são o resultado dos atos que você praticou.

Ficamos ali, naquele banco até anoitecer. Falamos pouco, porque inevitavelmente os temas me conduziam a demoradas reflexões e ela, com respeito acompanhava meu ritmo, deixando que eu definisse a direção.

A idéia da reencarnação não fez muito sentido para mim naquele dia. Mas, não podia negar que tinha muitas lembranças de fatos e pessoas que não pertenciam ao menino José Carlos. Ele era um menino humilde e ignorante, temente a Deus segundo as normas do mais rígido catolicismo. E aquele menininho rapidamente tornava-se um homem dono de uma incrível lucidez, que substituíra a crença e o temor ensinados pelo mais profundo respeito e Amor a Deus, por sua maravilhosa criação. Não poderia também enganar-me por muito tempo. O sentimento por Tânia que me despertava a emoção era amor.


VI

Por mais que me esforçasse não conseguia ser completamente feliz. A colônia era maravilhosa. Linda, cheia de vida e de oportunidades de trabalhar e servir. O frescor e a leveza do ar, aliado á doce e encantadora melodia que parecia se ouvir em todos os lugares  sustentavam a moral e a elevação do pensamento.
A presença constante de Tânia a meu lado me traziam segurança e conforto. Sentia-me amado e respeitado por todos. Tudo era perfeito, mas havia algo que me incomodava e que não conseguia compreender.
Era como se uma voz interior estivesse sempre a chamar-me a atenção sobre algo que estaria por acontecer. Uma sensação estranha de que a qualquer momento apareceria alguém a pedir-me contas de alguma coisa.
Perturbava-me com estes pensamentos. Muitas vezes pensei que seria devido ao sentimento que nutria por Tânia, pois na colônia todos pareciam amar-se de forma incondicional, como numa verdadeira e desprendida amizade. Mas o que eu sentia por ela ia muito além disto. Sentia o calor dos apaixonados e quando descuidava do pensamento, surpreendia-me desejando-a ardentemente, a ponto de de ter as mesmas sensações de quando encarnado.
Nestas ocasiões envergonhava-me, pois pensava que relacionamentos entre casais não existiam na vida espiritual. Pelo menos ali, na colônia, até aquele momento, tudo me levava a crer que isto não seria aceito.

Foi numa destas ocasiões, com o pensamento solto e descontrolado, que Tânia surpreendeu-me. Era uma tarde de domingo e nós dois estávamos de folga de nossos afazeres. Havíamos combinado de nos encontrarmos no jardim e como ela estava atrasada, soltei as rédeas de minha mente.

- Desculpe o atraso! - Exclamou pousando a mão sobre meu ombro.
Levei tamanho susto que fiquei sem fala. Foi como cair das nuvens e voltar à realidade num solavanco.
Olhei para ela e vi em seus olhos que compreendia meus pensamentos. Ruborizei e baixei a cabeça desconcertado.
- O que foi José Carlos? Por que tamanho susto? Estava esperando-me não é?
- Sim, estava. Mas distraí-me e deixei-me dominar por meus desejos.
- Por que não falamos sobre isto?
- Não sei... Acho que você não aprovaria. Não quero perder a sua amizade. Você tem me ajudado muito desde que cheguei.
- Como pode pensar ainda desta maneira? Veja quantas mudanças já aconteceram com você desde que retornou! Deixou de ser um menino e tomou a forma de um homem. E um homem muito atraente, diga-se de passagem!
Diante de minha evidente surpresa, Tânia continuou:
- Sei o que você anda pensando ultimamente José Carlos. Sinto o mesmo por você. Nosso relacionamento vem de outras encarnações e não há por que não continuar. Amo você com todas as minhas forças.

Empalideci. Não consegui dizer nada. Apenas levantei-me e abracei-a demoradamente, enquanto as lágrimas vertiam de meus olhos.
Quando controlei a emoção, pedi a Tânia que falasse sobre nosso relacionamento, sobre as outras encarnações que mencionara.
- Você chamava-se Daniel. Foi com este nome que o conheci. Você tinha a aparência que tem agora quando nos casamos, eu em minha última encarnação, e você antes de retornar à Terra como o menino José Carlos.
Seu pai era um rico fazendeiro, dono de terras no Estado de São Paulo, que produziam muito café. Casamo-nos e vivemos felizes. Quando seu pai desencarnou, você assumiu seu lugar na fazenda e foi um competente administrador, fazendo o negócio prosperar. E, além de competente, você foi um bom homem, que sempre tratou com respeito e dignidade seus empregados e seus escravos.
- Tivemos filhos?
- Sim, tivemos quatro lindas crianças, dois meninos e duas meninas.
- Onde estão? Gostaria de conhecê-los!
- Tudo a seu tempo, José Carlos. Nossos filhos são antes filhos de Deus, que tem suas responsabilidades no círculo da vida. Alguns deles estão encarnados, outros estão servindo em outras esferas espirituais. Todos estão bem, com a Graça de Deus.

A naturalidade de Tânia deixava-me perplexo. Como ela podia estar tão calma, quando as novas idéias fervilhavam em minha cabeça? Fez-se um longo silêncio, quando então finalmente perguntei:
- Existe algo que você não me contou?
- Por que pergunta? Já não ouviu demais por hoje? Por que não coloca seus pensamentos em ordem antes de retomarmos a narrativa de nossas vidas?
- Porque apesar de tudo o que você me disse, apesar deste lugar maravilhoso e desta vida maravilhosa que você disse que tivemos, existe algo que está me incomodando.
- O que poderia incomodá-lo? Estamos junto novamente e o futuro agora só depende de nós.
- Sinto como se houvesse uma dívida a ser paga. Por favor, conte-me a história toda.

Sem dizer palavra, Tânia tomou-me pelas mãos e puxou-me, colocando-me a caminhar a seu lado. Andamos bastante pelo jardim, o que fez minha ansiedade por saber mais aquietar-se um pouco.
Continuamos a andar, agora em direção aos portões do grande prédio que me servia de abrigo de local de trabalho e estudo nos últimos tempos. Estranho é que eu nunca havia notado antes a existência de tal passagem. para mim, a colônia resumia-se naquele imenso prédio e seus jardins ainda maiores.
- Nossa colônia é maior do que você pensa - disse-me Tânia, lendo meus pensamentos.
- Onde vamos?
- Passear, conhecer a colônia.

Atravessamos os enormes portões. Deixei para trás o imponente edifício e surpreendi-me com a dimensão da colônia. Ruas, casas, praças, prédios. Pessoas por todo lado, aproveitando aquela bela tarde de domingo.
Fiquei maravilhado com aquilo. Crianças a brincar e correr livres pelas ruas, casais de namorados, pessoas conversando alegremente.
Paramos diante de um prédio, que parecia estar ligado ao azul infinito do céu por raios de luz.
- Chegamos. É aqui que você terá as respostas que precisa.
Levantei os olhos enquanto subia as escadas em direção à porta e li, numa inscrição feita em pedra: "Escola Lauro Cervantes".
Era chegada a hora de conhecer e enfrentar a verdade.

 

Vozes do Caminho - Todos os Direitos Reservados