Era um belo domingo de sol.
Muitas famílias, assim como a minha, espalhavam-se pela praia do rio, a fim de
divertirem-se depois de uma longa semana de trabalho na lavoura e com os
animais.
Alguns nadavam, outros pescavam e outros, como eu, minha esposa e minhas filhas,
estávamos apenas descansando e apreciando o lugar.
Já no meio da tarde, as águas subiram um pouco e começaram a ficar revoltas, principalmente no meio do rio. Chuvas fortes na cabeceira eram normais nesta época do ano.
Uma súbita gritaria me despertou da contemplação. Um pequeno garoto que estava num bote amarrado a uma corda foi jogado na água pela correnteza e agarrava-se desesperadamente ao casco do barquinho virado. Os homens puxaram vigorosamente a corda, que acabou se soltando e o barquinho acabou ficando preso em algumas rochas, que em breve desapareceriam sob as águas.
A esta altura a correnteza era muito forte, e vinha trazendo galhos de árvores, objetos das aldeias rio acima e até pequenos animais.
Como ninguém sabia o que fazer, me apresentei apesar dos protestos de minha esposa. Joguei-me no rio e fui até o garoto, que estava prestes a se soltar. Alcancei-o com bastante esforço e resolvi nadar até a outra margem, pois julguei que estava mais perto.
Cheguei lá exausto, porém como o garoto em meus braços. Com dificuldade pus-me em pé e pude ver uma multidão descendo a outra margem do rio, os gritos abafados pelo ruído das águas. Não entendi, a princípio, porque todos seguiam rio abaixo e ninguém ficou para tentar nos trazer de volta a outra margem.
Até que, da outra margem, surgiu um grupo com quatro pessoas, que vieram até minha presença caminhando sobre o rio. Compreendi, então, que todos lá do outro lado corriam atrás do meu corpo, na tentativa de não perdê-lo e resgatá-lo. O garotinho, porém, chorava apavorado, sentado à margem do rio. Pelo menos eu havia conseguido colocá-lo lá antes de me afogar.
Desde este dia, acompanhei o crescimento das minhas filhas e estava presente em todas as ocasiões em que me era permitido. O garotinho cresceu e tornou-se esposo de minha filha mais velha. Hoje preparo-me para retornar como seu neto. No ciclo da vida, recebemos em troca as bênçãos que ofertamos.
Fiquem com Deus.
Mbinde.