A morte não existe.
Hoje, mais de 20 anos depois de ter atravessado a grande barreira da morte, de
estar vivendo junto a inúmeros amigos na Pátria Espiritual, ainda tenho sonhos
daquele tempo sombrio.
Naqueles dias, tempo de privações, de angústia,
de guerra, escapei da morte apesar de tê-la encarado de frente.
Judeu, vivendo no coração da Alemanha, não acreditei que o anti-semitismo
chegaria tão longe e não escapei quando tive a oportunidade. Fui ficando e
paguei um alto preço.
Virei cobaia de laboratório.
Fui exposto ao frio intenso, até ter minha pele queimada e meu coração quase
parar de bater. Depois, colocaram-me para sufocar no calor.
Deixaram-me sem água e quando estava quase morto de sede, davam-me líquidos
estranhos para beber. Combinações de veneno, na verdade, que causavam-me dores
atrozes e deixavam meu corpo em frangalhos.
As experiências duravam dias, semanas e, entre uma barbaridade e outra, iam-se
também longos períodos de dores, desconfortos físicos e delírios. O objetivo de
tamanha desumanidade era simples: conhecer os limites do corpo, usando pessoas
de verdade.
Mas, não morri. Muitos não agüentaram mas eu,
não sei como, sobrevivi.
Na verdade, desencarnei uns 40 anos depois que a guerra acabou, de pura velhice,
apesar das chagas e seqüelas físicas e psicológicas que carreguei por toda a
vida por causa daqueles dias.
Tanto que até hoje, em espírito, ainda guardo profundas e dolorosas lembranças
das crueldades de que fui vítima.
Refiz-me e dedico-me a resgatar meus algozes e alguns dos meus ex-companheiros que ainda insistem no ódio, devido à violência com que foram atirados ao mundo espiritual. Ambos ainda existem aos montes espalhados pelos umbrais, todos pagando o preço de seus erros, dos erros de uma guerra de grandes proporções.
Orem por todos nós, os órfãos da grande guerra.
H. Steiner