Por anos a fio padeci por minha própria ignorância.
Desencarnei ainda jovem, por meio de uma morte dolorosa produzida por veneno
ministrado por minha própria esposa.
Apesar de amá-la muito e também de muito amar pelos dois filhos pequenos, fui um
marido cruel e um pai tirano. Numa época onde o patriarca detinha todo o poder,
tratava a todos com excessiva autoridade e não permitia nenhum tipo de prazer,
por menor que fosse, à minha esposa, fazendo dela uma verdadeira serviçal.
Ela,
por sua vez, acabou por desejar outro homem e tirou-me do caminho para ficar com
ele.
Assim, desencarnado, vivi anos atormentando o casal, ajudado por outros
espíritos de baixo nível que a mim se associaram, por terem rixas antigas contra
o rapaz que se apossou de minha família.
Por anos passei por cima dos Benfeitores que ali davam plantão sem ao menos percebê-los. Meu estômago corroído pelo veneno (do meu próprio ódio, vim depois a saber...!), doía sem parar.
Quando finalmente sucumbi ao sofrimento, vislumbrei uma alva figura em minha frente, que brilhava tanto que eu mal podia ver seu rosto.
Estendeu-me a mão e senti uma paz tão grande que adormeci.
Quando acordei estava num hospital de uma colônia próxima à minha cidade.
Após anos de tratamento, finalmente pude recuperar-me e perdoar aquela que me traiu.
Hoje trabalho por ela, que se encontra novamente encarnada, expiando os erros do passado, e recentemente obtive a permissão dos meus superiores para retornar a Terra com seu filho.
Resta-me agora trabalhar para obter da minha antiga esposa o consentimento de utilizar seu bendito ventre como porta de entrada a uma nova vida.
Pelo amor que nos une tenho fé que terei sua permissão e aguardo ansioso todas as noites quando seu espírito se desprende para que, gradativamente possamos nos reaproximar.
Que Deus nos permita, juntos, repararmos nossos erros.
João Bento.