Cód:

259
15/02/2006
Autor:
Psicografado por: Cleber P. Campos

Quando começou a chover já fazia algum tempo que a forte ventania açoitava a pequena janela do meu quarto.
A tempestade era a mais forte que eu já havia visto em meus 45 anos. Naquela época eu tinha belo corpo, saudável e forte, moldado por anos de trabalho na lavoura. Era também exímio nadador, graças a dependência que nosso vilarejo tinha do grande rio.

A água subia sem parar.
Lá fora, abafado pelo ruído da chuva e da ferocidade do rio, ouvia-se os lamentos das pessoas. A água acabou invadindo também a parte alta da cidade, pegando todos os aldeões de surpresa. O único lugar seguro passou a ser o templo e os homens carregavam de gente seus botes, que eram poucos.
E a água continuava subindo.

Rapidamente o desespero tomou conta de todos. Os botes carregados eram lentos se comparados à correnteza e demoravam muito para chegar a lugar seguro. Nos tetos das casas sobravam velhos, mulheres e crianças, pois os mais jovens aventuravam-se a nadar até o templo.
Deixei meu bote com meu filho e disse-lhe para salvar tanta gente quanto possível e atirei-me na água, carregando em meus ombros uma menina que passava levada pelas águas.

Com dificuldade, levei-a até lugar seguro. Voltei a nado até o telhado da casa mais próxima e, em minhas costas trouxe uma jovem mãe com seu bebê. Novamente fiz, a nado, a viagem entre o templo e os telhados das casas, resgatando dois garotinhos. Meus pulmões pareciam que iam estourar e meus músculos doíam de cansaço quando deixei uma velha senhora nas escadarias do templo.

Atirei-me novamente às águas e subitamente esqueci das dores e das dificuldades. Fiz o trajeto por diversas vezes, deixando muitas pessoas na segurança das escadarias. O cansaço já não incomodava mais e fiquei orgulhoso do meu preparo físico. Por fim, mais uma vez nas escadarias do templo e preparando-me para novo mergulho, senti uma mão áspera me segurar pelo braço. A velha senhora que eu havia resgatado parecia-me agora dotada de luz própria e com um sorriso amável me disse:

- Veja, meu filho. A tempestade já passou e o sol brilha de novo no horizonte. Você hoje ajudou algumas pessoas a ficarem neste mundo e outras tantas a ter um despertar tranqüilo, escapando do terror das águas. É hora de você também despertar e seguir conosco para outras bandas.

 

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