Cód:

247
24/08/2005
Autor:
Psicografado por: Cleber P. Campos
Ref:

Eu vivia sozinho no casarão da fazenda há muito tempo.
Minha adorada esposa havia falecido, e meus filhos, já crescidos, haviam partido para a cidade em busca de estudos e oportunidades de trabalho. No começo vinham ver-me, mas depois foram espaçando suas visitas até não aparecerem mais.
Fui tocando minha vida, sentindo a solidão corroer-me por dentro. Depois de algum tempo só, acabei arranjando uma cadelinha, um lindo filhote de Labrador, que passei a chamar de Mel.

O tempo passou, Mel cresceu e tornou-se minha inseparável companheira. Conversava com ela o dia todo e ela me seguia onde quer que eu fosse.

Numa noite, ouvi um ruído estranho, que me fez acordar assustado. Pareciam vozes vindas do salão. Levante-me com cuidado e fui, vagarosamente até lá, mas não havia ninguém. O silêncio era total. O interessante é que Mel pareceu nada ouvir, pois permaneceu dormindo.
A partir de então, coisas estranhas passaram a acontecer em minha casa.
Vozes, passos, risos de crianças. Muitas vezes encontrava objetos da casa em posições diferentes do que havia deixado.
Seria a solidão que me fazia sentir estas coisas? Fiquei preocupado em estar perdendo o juízo.

Num domingo à tarde as vozes voltaram com grande intensidade, e pareciam ecoar por toda a casa. Fiquei muito incomodado, a ponto de querer por fim de uma vez por todas na situação. Olhei pela janela e vi Mel brincando com um vulto que parecia ser uma criança. Era uma imagem difusa e eu não podia ver claramente seu rosto, mas era mesmo uma criança. E, ao lado daquela criança haviam outros vultos, outras crianças e adultos, todos parecendo imagens apagadas contra a paisagem luminosa daquele belíssimo dia.
Um arrepio percorreu minha espinha, quando via aquelas assombrações. Da janela mesmo, gritei para Mel afastar-se deles.

Por um instante, todos pararam e olharam em minha direção, mas logo em seguida retomaram a bagunça que faziam. Mel, por sua vez, veio em minha direção, atendendo a meu chamado, mas deteve-se e voltou a brincar com a criança, que a abraçou, segurando-a pelo pescoço.
Fiquei transtornado e, saltando a janela, corri em direção da cadela para agarrá-la e tirá-la dali, com medo que eles a ferissem. Corri de forma tão determinada que acabei indo de encontro a um dos vultos grandes, colidindo com ele.
Foi como "trombar" com outra pessoa de carne e osso. No encontrão, pude sentir seu calor, sua respiração e sua consistência humana. Caí sentado e pude perceber que ele (ou ela) caiu também.
Neste instante, todos os fantasmas sumiram e Mel veio em meu encontro, lambendo meu rosto.

Fiquei apavorado. Rezei a todos os santos que conhecia, pedindo proteção e pedindo que levassem embora aquelas almas penadas.
À noite, não consegui pregar o olho, com medo que as assombrações voltassem. Passei dias (ou seriam semanas?) assim, assustado, rezando todo o tempo e dormindo quase nada ou muito mal.

Numa noite, os estranhos ruídos voltaram. Estavam, porém diferentes. A curiosidade venceu o medo e dirigi-me ao salão, de onde vinha toda aquela confusão.
Fiquei surpreso ao ver que, em torno da mesa de jantar, muitas pessoas pareciam orar. As pessoas sentadas eram vultos e eu não podia ver direito suas faces. Eram exatamente como as assombrações que ultimamente me causavam tanto desconforto.
Haviam também diversas pessoas em torno da mesa que, além de orar também, pareciam dar algum tipo de "força" aos que estavam sentados, pois de suas mãos, cabeças e corações projetavam finos fios de luz de várias cores. Estes, apesar dos raios de luz eu podia ver bem, pois eram pessoas como eu
Do centro da sala, sobre a mesa projetava-se um alvo facho de luz que parecia brotar do teto.

Todos oravam e falavam meu nome. Sentindo-me atraído e inexplicavelmente "seguro", aproximei-me. Com o apoio daquelas pessoas, pude falar com as assombrações que tanto me incomodavam e pedi que fossem embora.
Custei a entender a situação e, quando me passou pela cabeça que a assombração ali era eu, fiquei desconcertado. Teimoso, não quis acreditar, mas a presença de minha amada esposa me colocou diante da verdade.

Reconheci minha situação e pedi perdão a aquelas pessoas que na verdade eu estava incomodando, por pura ignorância. Pedi também a eles que continuassem a tomar conta da Mel, e agradeci muito a eles e a Deus pela paciência e pela ajuda.
Parti para uma nova vida e tempos depois vim a saber que fiquei perdido em minha própria casa e em minhas ilusões por mais de quarenta e cinco anos. Vim a saber também que Mel foi comprada pelos encarnados, os novos donos da casa, e que Suzy era seu nome. Novamente fiquei grato a Deus pela beleza de sua obra, onde aquele belo animal podia de certa forma interagir comigo e dar-me algum conforto naquela miserável situação em que me encontrava.

Que Deus abençoe a todos.
Um amigo.
 

Vozes do Caminho - Todos os Direitos Reservados