Cód:

220
27/11/2004
Psicografado por: Cleber P. Campos
Solidão

Boa tarde.
Venho aqui hoje para narrar-lhes uma parte de minha história, onde meus Orientadores acreditam ser de utilidade aos presentes.
Quando, em minha última encarnação, passei desta para a melhor, foi como se nada tivesse acontecido.
Sinceramente não sei dizer quando e nem como morri. Não sei quem me enterrou. Não sei nem mesmo se fui enterrado.
Sempre tive uma saúde excepcional. Nunca fui a nenhum doutor na cidade.
Filhos não tive. Tive somente a Maria, minha companheira de muitos anos, que Deus chamou bem antes de mim.
Vivi assim, sozinho, em minha casinha lá no mato, onde o sinhô da fazenda me deixou construir meu barraco. Cuidava da minha horta, minha galinhas, caçava uns passarinhos e quando dava sorte pegava um calango que dava um belo ensopado. E era só chover que dava pencas de içá.
Tudo ia bem. Acostumei-me á solidão, pois só de vez em quando os filhos do patrão e ele próprio passavam para um dedo de prosa.

Certa feita, quando já fazia um tempão que eles não apareciam, ouvi vozes.
Ruídos estranhos, música alta e barulhenta como eu nunca tinha ouvido. Botei a cara na janela e deparei com um imenso casarão bem no meu quintal. Levei tamanho susto que enfiei-me em baixo da cama e comecei a rezar.
Tudo desapareceu e voltou ao normal.
Mas, a partir daí, coisas estranhas começaram a acontecer.
A qualquer hora, e sempre de repente, carruagens estranhas e barulhentas vinham em minha direção.
Às vezes eu via gente que atravessava minha parede e saía do outro lado. Pensei estar enlouquecendo. Não parava mais de rezar, até que um anjo apareceu e me disse que eu havia morrido a mais de oitenta anos.
Aí sim achei ter ficado louco. Demorei a entender e a aceitar, mas acabei indo embora com ele, pois as visões já não me deixavam em paz.

Hoje compreendi que vivi por quase um século dentro de um mundo criado por minha própria mente, devido á minha dureza de espírito.
Quando finalmente a solidão, que era a minha prova, lapidou meu coração, comecei a ter lampejos de visão, que me permitiam enxergar a realidade e me obrigaram a pedir ajuda.
Em minha ignorância não percebi que, com o tempo, a velha fazenda foi engolida pelo progresso e pela cidade.
Eis aí o meu relato.
Espero que seja de boa utilidade.

Genival dos Anjos.

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