FELICIDADE
Inútil
será traduzir para o papel o que se expressa apenas na profundidade do Ser. Inútil
comparar, discutir sentimentos, pois sua peculiaridade os exclui de qualquer
avaliação objetiva. É possível, entretanto, expor nossa idéia sobre esse
sentimento tão contraditório, tão pessoal, tão buscado, tão indefinível
A ânsia maior e incontida dos seres desde que se dão acordo de uma existência
é a felicidade, na maior parte das vezes confundida com o prazer. Os humanos têm
ainda momentos de prazer, instantes de glória e, sem sequer cogitar que estes são
ensaios para a vivência da felicidade, ou se contentam e buscam suas
repetitivas sensações, ou se revoltam e anseiam sempre mais, numa luta
desenfreada e ansiosa, num desequilíbrio de ambições que jamais os conduzirão
ao que sonham.
A felicidade é a conquista maior dos mansos, daqueles que já abrigam em seu
Ser as consciências que apaziguaram, as lágrimas que secaram, os desesperos
que esclareceram, as sementes que plantaram e, sobretudo, as pérolas da renúncia.
A busca da felicidade se reveste ainda, nos humanos, de um ato de egoísmo,
buscando alegrias e prazeres para si próprios, e, por isso, está a humanidade
tão longe desta conquista.
No momento em que, tocados pela compreensão maior da Vida, os seres se
conscientizarem que a felicidade que tanto perseguem não está no prazer de
suas conquistas mas na alegria das conquistas alheias, perceberão que quanto
mais as criaturas buscarem o exercício da fraternidade e do Amor, mais próximas
estarão do êxito de suas buscas.
Feliz é a criatura que já venceu todas as barreiras do egoísmo e que,
portanto, está invulnerável à mesquinhez humana; feliz é o Ser que já
conquistou no seu santuário interior, a plenitude da fé, firmada na razão e
no trabalho incessante. Feliz é o Ser que já não se deixa dominar pelas paixões
próprias da pequenez, que não se envolve com a violência nem de pensamentos e
que já pode perceber a Harmonia Universal e nela se inserir.
Devemos buscar a felicidade, sim, mas não como crianças levianas que não
sabem como brincar; mas compreendendo que essa conquista depende da relatividade
dos nossos prazeres e alegrias e enquanto estes não estiverem sob a
relatividade do Evangelho, serão meros ensaios.
É fundamental que se pense de forma mais ampla sobre a felicidade para que se
saiba como buscá-la. Não há tempo para ilusões, mas momentos para conquista.
Assim, compreendamos todos que a felicidade é o reflexo dos que amam de forma
irrestrita; é a vibração contagiante dos que permanecem na paz; é a irradiação
dos que consolidaram sua Harmonia Universal.
Busquemos, portanto, a vivência ampla do amor, a paz que brota da consciência
livre, porque está presa aos deveres e à harmonia pelo exercício do domínio
das feras que habitam nossos seres. Esse é o caminho. A trilha é longa mas
cada passo é um instante definitivo de felicidade e não mais de prazer. Cada
passo concretiza nossa caminhada segura e nos dá como marco da conquista, a
sensação perene da felicidade almejada.
Buscar a felicidade, meus irmãos, é trabalhar pela auto-perfeição. E se
fomos criados por um Pai de Amor, só nos resta a obrigação de sermos felizes.
Isto é uma imposição da Harmonia Universal, que nós ainda não aceitamos por
não a termos compreendido; que não a vivemos ainda, por nos termos perdido na
pequenez das glórias efêmeras e dos prazeres infantis.
Vamos perseguir esta imposição tornando-a nossa, sem nos esquecermos de que
para a sua conquista, que é íntima e individual, precisaremos ter vivido um
pouco do nosso semelhante e transformado suas mazelas em doçuras; ter contribuído
para a conquista da felicidade de nossos irmãos para que ela transpareça em nós.
Assim, irmãos, refletiremos a felicidade que dermos ao nosso semelhante e a
sentiremos na medida em que a proporcionarmos aos nossos irmãos.
O paradoxo da felicidade se traduz, exatamente assim: à medida em que causarmos
a felicidade do próximo, esta será a causa da nossa.
Obrigado.
Psicografia
de Nora T. M. N. Sakamoto
Do
site de O Clarim