Cód:

197
17/07/2003
Autor:
Psicografado por: Nora T. M. N. Sakamoto
FELICIDADE

FELICIDADE

Inútil será traduzir para o papel o que se expressa apenas na profundidade do Ser. Inútil comparar, discutir sentimentos, pois sua peculiaridade os exclui de qualquer avaliação objetiva. É possível, entretanto, expor nossa idéia sobre esse sentimento tão contraditório, tão pessoal, tão buscado, tão indefinível…
A ânsia maior e incontida dos seres desde que se dão acordo de uma existência é a felicidade, na maior parte das vezes confundida com o prazer. Os humanos têm ainda momentos de prazer, instantes de glória e, sem sequer cogitar que estes são ensaios para a vivência da felicidade, ou se contentam e buscam suas repetitivas sensações, ou se revoltam e anseiam sempre mais, numa luta desenfreada e ansiosa, num desequilíbrio de ambições que jamais os conduzirão ao que sonham.
A felicidade é a conquista maior dos mansos, daqueles que já abrigam em seu Ser as consciências que apaziguaram, as lágrimas que secaram, os desesperos que esclareceram, as sementes que plantaram e, sobretudo, as pérolas da renúncia.
A busca da felicidade se reveste ainda, nos humanos, de um ato de egoísmo, buscando alegrias e prazeres para si próprios, e, por isso, está a humanidade tão longe desta conquista.
No momento em que, tocados pela compreensão maior da Vida, os seres se conscientizarem que a felicidade que tanto perseguem não está no prazer de suas conquistas mas na alegria das conquistas alheias, perceberão que quanto mais as criaturas buscarem o exercício da fraternidade e do Amor, mais próximas estarão do êxito de suas buscas.
Feliz é a criatura que já venceu todas as barreiras do egoísmo e que, portanto, está invulnerável à mesquinhez humana; feliz é o Ser que já conquistou no seu santuário interior, a plenitude da fé, firmada na razão e no trabalho incessante. Feliz é o Ser que já não se deixa dominar pelas paixões próprias da pequenez, que não se envolve com a violência nem de pensamentos e que já pode perceber a Harmonia Universal e nela se inserir.
Devemos buscar a felicidade, sim, mas não como crianças levianas que não sabem como brincar; mas compreendendo que essa conquista depende da relatividade dos nossos prazeres e alegrias e enquanto estes não estiverem sob a relatividade do Evangelho, serão meros ensaios.
É fundamental que se pense de forma mais ampla sobre a felicidade para que se saiba como buscá-la. Não há tempo para ilusões, mas momentos para conquista. Assim, compreendamos todos que a felicidade é o reflexo dos que amam de forma irrestrita; é a vibração contagiante dos que permanecem na paz; é a irradiação dos que consolidaram sua Harmonia Universal.
Busquemos, portanto, a vivência ampla do amor, a paz que brota da consciência livre, porque está presa aos deveres e à harmonia pelo exercício do domínio das feras que habitam nossos seres. Esse é o caminho. A trilha é longa mas cada passo é um instante definitivo de felicidade e não mais de prazer. Cada passo concretiza nossa caminhada segura e nos dá como marco da conquista, a sensação perene da felicidade almejada.
Buscar a felicidade, meus irmãos, é trabalhar pela auto-perfeição. E se fomos criados por um Pai de Amor, só nos resta a obrigação de sermos felizes. Isto é uma imposição da Harmonia Universal, que nós ainda não aceitamos por não a termos compreendido; que não a vivemos ainda, por nos termos perdido na pequenez das glórias efêmeras e dos prazeres infantis.
Vamos perseguir esta imposição tornando-a nossa, sem nos esquecermos de que para a sua conquista, que é íntima e individual, precisaremos ter vivido um pouco do nosso semelhante e transformado suas mazelas em doçuras; ter contribuído para a conquista da felicidade de nossos irmãos para que ela transpareça em nós.
Assim, irmãos, refletiremos a felicidade que dermos ao nosso semelhante e a sentiremos na medida em que a proporcionarmos aos nossos irmãos.
O paradoxo da felicidade se traduz, exatamente assim: à medida em que causarmos a felicidade do próximo, esta será a causa da nossa.
Obrigado.

Albert Camus

Psicografia de Nora T. M. N. Sakamoto 
Do site de O Clarim

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