Cód:

165
18/09/2003
Autor:
Psicografado por: Cleber P. Campos
Progresso

Progresso

Hoje estou em paz. Mas nem sempre foi assim.
A muito tempo fui rico fazendeiro, possuía gado, terras a perder de vista, escravos. Possuía título de nobreza, era reconhecido na sociedade colonial, tinha amigos influentes.
Minha autoridade era inquestionável e quem ousasse contrariar-me sofria graves represálias, não importando quem era, se escravo, amigo ou parente.
Minha fortuna só não crescia mais rápido que minha avareza e frieza.
Casei-me, tive filhos. Tudo o que consegui ensinar-lhes foi o valor do dinheiro. Nunca me passou pela cabeça caridade, amor ou compaixão.
Paguei alto preço por isto. Numa noite qualquer, meu filho mais velho, embriagado pela sede de poder e por possuir o que me pertencia, despachou-me deste mundo.
Fui dormir rico e acordei sem nada.
Tudo via, tudo sentia e nada podia fazer.
Presenciei meu próprio enterro e vi descer à terra meu título de nobreza e tudo aquilo em que acreditava. Meus supostos amigos escarneciam de mim e muitos cuspiram em meu túmulo.
Nunca imaginei que a vida continuasse desta forma.
Enquanto meus filhos dilapidavam o patrimônio de minha vida, eu era espezinhado de todas as formas pelos desafetos desencarnados, dentre eles inúmeros escravos mortos debaixo de pesados castigos.
Enchi-me de ódio, lutei o quanto pude e desencaminhei meus filhos, levei minha mulher à depressão e pus a perder a fazenda, adoecendo o gado e estragando o leite.
No auge da minha loucura, numa noite escura, eis que me aparece um negrinho de cabelo branco, enrugado pela idade, olhos mansos e d fala alegre e animada.
Reconheci-o imediatamente. Era mais uma de minhas vítimas, que eu mesmo matara quando eu era ainda jovem.
Estranhamente, ao invés de insultos ou agressões, ele pousou a mão em meu ombro e disse:
 "Acho que você já sofreu demais. É hora de abrandar seu coração..."
Não sei porque ajoelhei-me a seus pés e pus-me a chorar. Senti-me profundamente aliviado.
Hoje sou grato a Deus e a este preto velho que me tirou das sombras.
Este pequeno amigo tem me ajudado nos últimos anos fazendo-me crescer e compreender a necessidade da reparação.
Graças a Deus a fazenda voltou a produzir e está na terceira geração da nossa família.
Estou lutando e conto com o apoio do meu iluminado amigo por uma chance de retornar e poder novamente trabalhar na fazenda, agora como bom patrão.
Deus abençoe a todos.
Orem por mim.
Muito obrigado.

Manoel.

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