Passagem
Foi rápido demais. Notei que havia algo diferente, mas não
sabia precisar o que.
Senti-me mais leve, mais forte, mas minha audição, porém, estava um pouco
confusa parecendo escutar diversas vozes ao mesmo tempo.
Minha visão estava também estranha pois além das coisas normais eu tinha a
impressão de ver diversas pessoas que mais pareciam estar fora de foco ao lado
de pessoas normais. Algumas eram apenas silhuetas, outras pareciam borrões de
luz, outras ainda estavam como que apagadas.
Um pouco confusos com tudo isto segui meu caminho para casa. Ao chegar não
encontrei ninguém. Estranhei, mas, como estava cansado, fui para meu quarto e
adormeci.
Pela manhã, ao acordar, notei que ainda não havia ninguém em casa.
Preocupei-me principalmente com minha mãe. Onde estava ela e por que teria
passado a noite fora?
Foi então que uma vontade incontrolável de sair e caminhar tomou conta de mim.
Ganhei a rua e fui andando como se guiado por um chamamento.
Para minha surpresa fui dar no velório da cidade, que naquela manhã estava
lotado.
Aproximei-me e deparei com meu velho pai parado à porta. Estava com a mesma
roupa e com a mesma aparência desde a última vez que eu o havia visto a uns 10
anos.
Parei a seu lado e abracei-o. Não tive coragem de entrar e ver quem estava ali
sendo velado.
Virei-me e fui embora, seguido pelo meu pai, que depois me conduziu para um
local mais sereno. Somente dias depois, refeito do susto, vim a saber que a vida
me fora tirada por um veículo desgovernado que invadiu a calçada onde eu
caminhava.
Autorizado retornei mais uma vez a minha casa e dei um último beijo em minha mãe
e nas minhas duas irmãs. Mamãe certamente sentiu minha presença pois sua
mente encheu-se com minha imagem e eu pude inspirá-la que estava bem.
Saí de lá emocionado e segui meu caminho.
Estava eu com 15 anos e, com a Graça de Deus havia retornado à pátria
espiritual.
Boa noite e um abraço a todos.
Ermelindo.