Ver e enxergar
Foi numa tarde cinzenta
que me despedi deste mundo físico em minha última encarnação.
Eu caminhava no meio da rua entre escombros e lixo quando um morteiro estourou
bem a meu lado. Meu corpo foi atirado em direção à calçada, batendo numa
parece e caindo no chão, como um boneco.
Assustado, ofegante de pavor, levantei-me de pronto, sacudi a poeira das roupas
e saí correndo dali, escondendo-me no primeiro porão que achei.
Meus ouvidos zumbiam ferozmente. Sentia um leve enjôo.
Pus-me a olhar a rua pela clarabóia e vi tropas marchando na rua, saindo da
cidade.
Curiosamente, os soldados carregavam figuras esquisitas, algumas muito escuras,
penduradas a eles. Fiquei aterrorizado ao notar que aquelas figuras me viam e
acenavam para mim. Quem eram eles?
Quando a tropa se foi, saí à rua e pude vislumbrar cores e sombras diferentes,
além de aromas que jamais percebera antes.
Caminhei muito até perceber uma intensa luz vinda de uma das casas.
Aproximei-me e vi que a casa parecia ter uma conexão iluminada que seguia até
o céu.
Muitos aglomeravam-se na porta, sem conseguir entrar. Não havia ninguém
impedindo, mas eles simplesmente não conseguiam passar da porta.
Fui chegando perto, pedindo licença aqui e ali e parei diante da porta.
Lá dentro, um velho soldado num reluzente uniforme polonês, estendeu-me a mão.
Entrei. Encantei-me e nunca mais desejei sair.
Graças a Deus, pude imediatamente começar a trabalhar e a auxiliar.
Existem ainda muitos amigos pelo mundo afora que vêem a luz, mas nada enxergam
quando colocados diante dela.
Um abraço a todos.
D.I.K.