Ouvi um estalo na porta e ao olhar de
rabo de olho vi a tia Amélia entrando devagarinho.
Não é possível, devo estar sonhando, pensei.
Ela se aproximou e disse: Júnior, levanta daí e vamos embora antes que sua
mão chegue!
Aí pensei que estava enlouquecendo. Afinal a tia Amélia já tinha morrido a
uns cinco ou seis anos, sei lá.
Vambora menino! Disse ela com aquele sorriso largo e aquela bondade de
sempre.
Levantei, olhei para ela e pensei: só se eu tiver morrido também...
Taí um garoto esperto, disse ela como que respondendo ao meu
pensamento.
Aí não teve jeito não. Fomos embora de braços dados. Só depois vim a saber
que você, mãe, chegou pela manhã chamada às pressas pelos médicos.
Mas eu já não tava mais lá. Fica fria mãe que a vida continua pra todo
mundo.
Sem essa de que eu era tão jovem e tinha uma vida toda pela frente. Eu ainda
tenho. Tô aqui, tô vivendo e aqui tem muito o que fazer.
Tá cheio de coisas legais e só pra você se acalmar semana que vem eu começo
a ir a escola.
Tudo bem que estou com saudades de você e do pai, mas fazer o que? Agradeça a
Deus o fato de eu estar aqui perfeito, pois a sobrevivência no corpo naquele
estado me faria tipo um vegetal. Foi isto que me mostraram aqui.
Bom, tenho que ir. Um beijão a todos.
A gente se vê quando for a hora.
Henrique.