Esperava eu por um milagre.
Dias, meses, anos, quanto tempo naquele inferno?
Escuridão, frio, medo. Seres monstruosos me perseguiam constantemente. Eu
precisa viver fugindo e me escondendo para não ser molestado ou agredido por
eles.
Demorei a entender o que tinha
acontecido. Por vezes considerei mesmo estar morto, mas não encontrava
explicações de como tinha ido parar ali. Por mais que buscasse não encontrava o
caminho de volta. Não havia saída.
Eu simplesmente não me lembrava de como tinha chegado lá. Estava morto, mas
estava também bem vivo.
O sangue escorria grosso, escuro e fétido do buraco de bala em minha testa. Entrava em meus olhos e turvava a visão. Tinha as mãos sempre sujas de sangue, pois vivia esfregando os olhos para tentar limpa-los. A dor era constante, insuportável. A toda hora eu parecia reviver o momento final, erguendo lentamente a arma, apontado contra minha própria cabeça e puxando o gatilho. E em todas as vezes a dor era lancinante. Não conseguia ter paz, impossível estar em meu juízo perfeito.
Nos breves momentos que adormecia, sonhava com minha casa e com minha amada. Mas era só. Logo acordava e estava de volta ao pesadelo que eu criara para minha vida.
Por muitas vezes via pontos de
luz surgirem na paisagem escura. A sensação ao ver estas aparições era de
profunda paz, mas a luz era tanta que me ofuscava e eu não conseguia me
aproximar.
Por fim, uma destas aparições tomou a forma humana perto de mim. Depois disto,
lembro-me de ter acordado num centro de tratamento, onde me senti muito melhor,
mais leve e já sem dor, apesar do ferimento ainda aberto.
Vim a saber que mais de cem anos haviam se passado. Minha amada já havia desencarnado e retornado a Terra sob outra veste física, dado ao tempo que fiquei ausente, preso em minha própria loucura, no meu inferno particular.
Hoje trabalho para obter permissão de reencarnar como filho do coração daquela que tanto amei e que foi a causa da minha queda em minha última experiência na Terra.
Orem por mim. Incluam, por favor, meu nome em suas orações.
Ozéias Bezerra.