Foi num carnaval, há muitos carnavais.
Despertei meio assustado, meio confuso. A cabeça doía, o estômago embrulhado.
Já conhecia aquela sensação: ressaca pura, depois de mais uma noite de farra,
aumentado por toda a permissividade do carnaval.
Não estava no meu quarto. Não reconheci o lugar, pois também não parecia a
casa de nenhum conhecido.
"Tudo bem", pensei, devia ser a casa de alguém que conheci naquela
noite, o que não seria incomum. O fato é que não me lembrava de nada, somente
lampejos da festa da noite anterior.
Lavei o rosto, sentei-me na cama. Olhei pela janela e vi que estava num andar
muito alto, de onde avistava-se extensa área verde, o que me deixou preocupado.
Eu conhecia bem a cidade e sabia que não existia nenhum parque daquele tamanho,
o que levava-me a crer que estava numa área rural.
"Como vim parar tão longe?"
Notei então que a porta não tinha maçaneta pelo lado de dentro, isto é, eu
não podia sair.
Entrei em pânico. Esmurrei a porta e, aos berros, exigia que me libertassem.
Gritei, chorei, insisti, mas não aparecia ninguém.
Pensei então na janela. Era alto, mais pensei que conseguiria pular e fugir
dali. Precisava, afinal, voltar para casa e tomar mais um "trago".
Decidido, dirigi-me a janela, disposto a tudo, quando ouvi o ranger da porta
abrindo-se.
Um homem de porte avantajado, que imediatamente reconheci como meu falecido
irmão mais velho, me disse:
- Vai com calma irmão. Está querendo morrer duas vezes no mesmo dia?
Desde momento em diante, foi um longo e árduo caminho até eu pudesse me livrar
do vício, recuperar-me e reconquistar o equilíbrio. Resgatei penosas
lembranças, como a daquele fatídico dia onde mais uma vez embebedei-me e
acabei dando cabo da própria vida, atirando meu carro contra um poste. Morri
sozinho, por sorte, não complicando ainda mais a minha problemática situação
de suicida.
E, graças a Deus, meu irmão, credor de valiosos serviços, foi autorizado a
resgatar-me do umbral, senão eu ainda estaria por lá.
Hoje, ao lado de meu irmão, rondo a cidade de São Paulo em busca de incautos
como eu, tentando auxiliá-los a trilhar o difícil caminho escolhido ao vestíbulo da Espiritualidade.
José Carlos.