Ambiente pesadíssimo.
Horríveis criaturas perambulavam pelo que antes foram parques e casarios da
minha querida Polônia. Linda cidade e seus arredores, transformados em ruínas
e dominados por invasores.
Estampidos, rajadas de metralhadoras e explosões constantemente eram ouvidos.
Nos breves momentos de silêncio das armas, podia-se ouvir os outros sons da
guerra: lamúrias, gritos, choro abafado.
Por todos os lados os soldados nazistas e seus
cães farejadores, procurando e desentocando meus conterrâneos que, para
sobreviver, viviam escondidos como animais.
Numa destas batidas, acabei descoberta, e minha vida não valeu nem mais um
minuto. O soldado levantou sua pistola, colocou-a em minha testa e puxou o
gatilho, dando-me as costas e executando outros infelizes que comigo se
escondiam.
Por causa deste episódio, minha cabeça até
hoje ainda dói um pouco e, quando me lembro daquilo, meus ouvidos começam a
zumbir fortemente.
Daquele dia em diante, percebi que a guerra era muito mais horrível e violenta
do meus cinco sentidos jamais poderiam supor.
Comecei a ver, por todos os lados, criaturas horríveis, farrapos humanos que
emanavam um odor terrível. Mas, o pior de tudo, é que podia sentir o ódio no
coração de cada um deles, chegando a causar-me náuseas.
Estes infelizes, desencarnados pela guerra como eu, enganchavam-se nos
encarnados e seguiam com eles, como se um só fossem.
Alguns encarnados pareciam carregar multidões, tal era o número de criaturas
vampirizando-os.
Naquele dia, o dia de minha morte, pude
observar alguns dos meus amigos, o sangue ainda a jorrar pelo buraco aberto pela
bala, levantarem-se num arroubo de raiva e agarrarem-se a seu assassino, fazendo
a mente e o corpo do soldado assimilar toda aquela carga negativa.
Não tive coragem de revidar. Apesar da dor e do medo, apesar de sentir-me
atordoada pela morte violenta, pedi forças e orientação a Deus.
Assim, daquele dia em diante, o dia de minha morte, passei a buscar estar criaturas e iniciei um trabalho de convencimento, rogando-lhes a perdoar, pois julguei que seria a única forma de acabar com o conflito. Fui abençoada com a companhia dos trabalhadores do Cristo, que juntaram-se a mim neste trabalho de paciência e Amor, que dura até hoje.
Mais de cinqüenta anos depois, minha querida
Polônia renasceu e retomou toda a sua beleza e seu esplendor.
Nós, porém, ainda temos muito trabalho pela frente. Creiam-me, amigos, que nos
campos da Polônia existem ainda muitos desencarnados vagando, vivendo uma
guerra particular em sua mente e que ainda não são capazes de enxergar que as
flores estão de volta e que os canhões silenciaram.
Vivem um pesadelo particular e precisam ser resgatados.
Este é o nosso trabalho. Pedir licença para
entrar na guerra de cada um e, pacientemente, com Amor, abrir-lhes o coração
para a Verdade.
Pedimos assim a caridade de todos os que possam nos oferecer suas preces, pelos
irmãos esquecidos da segunda grande guerra.
Que a velha Polônia possa, enfim, sorrir aliviada, também nos campos do
espírito.
Berta.