Chamo-me Júlio.
Desencarnei jovem, aos 32 anos, no dia 29 de abril de 1948. Tinha dois filhos
pequenos, um menino de dez anos e uma menina de sete.
Amava minha esposa, vivia feliz.
Na data de minha passagem, voltava do trabalho como fazia todas as tardes.
Caminhava pela rua quando senti forte dor no peito, que me pôs de joelhos.
Minha vista escureceu e desfaleci.
Quando voltei à consciência, pelo menos assim o pensava, vi-me em agitado
hospital, com muitos médicos e enfermeiras sobre mim. Injetavam-me drogas,
batiam-me no peito. Eu nada sentia.
Podia tudo ver e tudo ouvir, mas não conseguia me mexer ou me comunicar.
De repente, todos pararam e saíram do quarto. Fiquei ali sozinho muito tempo,
até que vi minha esposa entrar em desespero, abraçando-me e chorando muito.
Só pensei compreender minha situação quando levaram-me ao necrotério e começaram
a preparar-me para o enterro.
- Mas eu estou vivo! - pensei. Meus Deus, o que fazer? Como avisá-los que ainda
estou aqui?
Pensando estar ainda encarnado, reuni todas as minhas forças e tentei
levantar-me, gritar ou fazer qualquer coisa que pudesse chamar a atenção de
alguém.
Mas, de nada adiantou.
Passaram-se as horas, montaram o velório, a noite foi indo embora, amanheceu o
dia.
Angustiado, desesperado, ouvia os comentários que faziam a meu respeito, via
meus filhos e minha esposa chorando a um canto e nada podia fazer.
Percebi que a hora derradeira aproximava-se.
- Meu Deus, vão me enterrar vivo!
Fecharam o caixão e tudo ficou escuro, abafado. Aterrorizado, lembrei-me,
finalmente, de Jesus.
Passei a orar fervorosamente, como um último alento, para que o Mestre viesse
me minha salvação. Nesse instante, senti um forte puxão, como se alguém me
pegasse pelo braço e me atirasse ao chão.
Como estava deitado, não tinha como apoiar-me e caí de costas, os olhos embaçados
pela luz do sol, os ouvidos atordoados por intenso e desconhecido zumbido.
O cortejo seguiu, como se ninguém tivesse me visto e nem ao menos notado o
barulho que fiz ao cair.
Diante de mim um homem alto estendeu-me a mão. Levantei-me agradecendo e,
quando deixei de ficar contra o sol, caí novamente sentado ao deparar-me com
meu velho e falecido pai.
Em prantos, abracei-o compreendendo finalmente que não mais pertencia ao mundo
dos vivos. Compreendi também que fiquei preso ao corpo por minha total ignorância
à continuidade da vida, e que meu pai estivera a meu lado todo o tempo, mas
minha condição mental me impedira de vê-lo a tempo de poupar aquelas horas de
angústia.
Em minha passagem nada senti e nada sofri,
exceto pela incerteza gerada pela minha própria condição mental. Adaptei-me
à duras penas à falta de minha esposa e até hoje sinto muitas saudades de
minhas crianças, hoje ainda encarnadas e já em sua terceira idade.
Eu e minha esposa estamos novamente reunidos depois de longa separação,
aguardando o retorno do filhos queridos, se Deus assim nos permitir.
Obrigado pela oportunidade de aqui estar.
Júlio.