Fui carrasco de muitos irmãos. Inocentes viveram em minhas mãos as mais
terríveis horas de sofrimentos intermináveis.
Bati, humilhei, mutilei e cheguei a matar alguns dos que passaram pelos porões
onde trabalhei.
Nunca me preocupei em saber se o infeliz era inocente, eu apenas os fazia
confessar o que queriam que ele confessasse.
Ao cerrar os olhos do corpo e abrir os olhos espirituais, lá estavam eles e
muitos mais esperando-me.
Em vão roguei perdão e misericórdia. Fui aguilhoado com a mesma fúria que
desferi a meus prisioneiros.
Lutei por muitos anos preso ao lodo de minha própria consciência e o que me dói
mais hoje, já resgatado pela bondade do Senhor, é encarar meu passado.
Em vida remota, fui eu santo padre da inquisição.
Tornei a vida numa condição semelhante, onde o destino de irmãos inocentes
estavam em minhas mãos.
Falhei, perdi para minha crueldade.
Orem por mim, pois estou precisando voltar, com a graça de Deus.
Zé.