Boa Morte
Pensei em correr, mas não dava mais tempo.
Só pude parar e ficar olhando, estarrecido, a onda enorme que se aproximava.
Em segundos uma imensa massa de água desabou na praia e sobre mim. Era
estranho, mas não me senti jogado de um lado a outro como era de se imaginar.
Eu parecia estar ali, ainda imóvel, em pé. Mas o ruído da água em meus
ouvidos era ensurdecedor.
Até que senti um tranco, como uma rajada de vento forte e curta, que acabou com
o ruído, mas pareceu me jogar longe, embora eu ainda me sentia em pé e estático.
Sons, imagens e movimentos pareciam dançar em minha mente, diante de meus
olhos. Passei a reviver em ritmo acelerado, momentos da minha vida e até de
vidas pregressas, que eu estranhamente tinha a certeza de ser eu.
Sensações de alegria, tristeza, raiva assaltavam meu peito, exatamente da
mesma forma que ocorreram na realidade.
De repente tudo sumiu. Eu estava lá, em pé olhando o mar. O sol ainda brilhava
forte, a praia tranquila, varrida pelas águas.
A meu lado, um homem alto, de roupas brancas me puxou pela mão e me conduziu a
minha nova casa.
Horas depois vim a saber que centenas de ilhéus tinham, como eu, sucumbido a
força da natureza. Muitos ainda a vagar pela ilha, desesperados por não mais
serem reconhecidos pelos que sobreviveram ou por se darem conta que não mais
pertenciam ao planeta.
Dei Graças a Deus pelo privilégio de ter desencarnado de forma tranquila e de
poder ter a lucidez de rever e recontar meus passos.
Dias depois compreendi que o privilégio da boa morte se deu porque eu sempre
pratiquei a caridade em minha existência e mantive longe de mim a maledicência
e a discórdia.
Orai e vigiai.
Kiriati.