Querida mamãe.
Venho, de muito longe, para lhe dar notícias.
Já faz tempo que tudo aconteceu, já faz tempo que ouvimos suas preces e agora
obtive a permissão de dirigir-lhes estas palavras.
Saiba que estou bem. Não foi nada fácil a minha chegada à espiritualidade,
primeiro pela natureza da minha morte física, depois pela teia de lamentações
e desesperança a que me vi presa.
Muito tempo passei retida, a ouvir e reviver cenas pouco edificantes, que
captava de todos vocês que aí ficaram. Sei que a visão do meu corpo, já
deformado pelas águas e meio comido pelos peixes não faria bem a seu coração
amoroso de mãe... "Eu estava só brincando na Lagoa Dourada, mãe!".
Agora que você sabe que não foi sua culpa e acredita que tudo correu como
deveria, suas lamentações transformaram-se em preces que abriram as portas
para esta carta.
Recuperei-me por todos estes anos e esperei, em Deus, que você também o
fizesse. E, graças a Ele, sinto você bem forte!
"Se estivesse viva, teria já idade para ser mãe", não é assim que
você sempre pensa?
Engano seu! Já não sou mais a menininha que era ao desencarnar. Assumi forma
adulta e por aqui existem muitos filhinhos a amparar.
Fui eu quem foi esperar o papai, assim que ele despediu-se de você. Estamos
aqui, trabalhando juntos.
Tenha fé que chegará o dia onde suas perguntas serão respondidas. Você
compreenderá, enfim, por que tive uma morte, no seu entender, tão dramática e
horrível.
Tenha fé e paciência.
Um beijo, de quem está sempre com você.
Célia